Dourados, MS - 24 de Novembro de 2017

13/11/2017 09h13

Segurança, dinheiro e fãs: entenda qual deve ser o impacto da privatização do GP do Brasil

ESPN

© Getty Lewis Hamilton acelera em Interlagos

O autódromo de Interlagos hospedou no fim de semana o último GP do Brasil tendo como dono a prefeitura de São Paulo. No domingo, ao seu reunir com o organizadores da prova e os membros da Fia para tratar de falhas na segurança, o prefeito João Doria (PSDB) aproveitou para informá-los que o local será mesmo privatizado - algo que deve ocorrer até abril de 2018 - e terá novo controlador na próxima temporada. Mas o que isso significa para os fãs de Fórmula 1?

 

 

 

Na avaliação do prefeito, os serviços vão melhorar, a segurança será mais rigorosa e eficiente e o autódromo receberá mais eventos es melhorias, atraindo mais público. Uma das ideias cogitadas é erguer um restaurante panorâmico. Outras são fazer um shopping, um museu e imóveis residenciais.

 

A visão da prefeitura é totalmente otimista sobre o caminho escolhido e Doria manifestou isso aos homens da F-1 no encontro de domingo.

 

"Apenas reafirmei ao Chase Carey [CEO da Liberty Media, dona da Fórmula 1] e ao Bernie Ecclestone que a decisão da privatização é irreversível. Nós vamos levar adiante. E provavelmente na próxima semana ou nos próximos dez dias teremos a aprovação do tribunal ao recurso que foi impetrado pela Câmara Municipal de São Paulo. Portanto, tenho convicção de que a Justiça fará esta libertação. E aí vamos partir para a segunda aprovação. Estamos muito tranquilos”, disse Doria.

 

O prefeito referia-se a liminar que barrou a nova votação sobre a privatização do autódromo. A Justiça pede a prestação adequada de informações ao município para que só assim seja realizada a votação na Câmara de Vereadores. Mas o órgão votou o tema no último dia 9 e aprovou.

 

Se do lado da prefeitura a perspectiva com a privatização do autódromo é positiva, do lado da Fórmula 1 e dos organizadores do GP do Brasil a visão não é exatamente igual. Publicamente, o discurso é de que é "melhor aguardar antes de opinar". Mas há um clima de insegurança.

 

Apesar de problemas na segurança, problemas financeiros e até oscilação na venda de ingressas (veja mais detalhes abaixo), os organizadores sempre deixaram São Paulo elogiando as condições para realizar a prova e até o presente momento sem qualquer queixa do relacionamento com os prefeitos anteriores.

 

Um impasse deve ser certo. A renovação de contrato para a realização do novo GP idealmente ocorreria no próximo ano, uma vez que o vínculo atual encerrará em 2020. Sem saber quem será o dono de Interlagos e quais passarão a ser as novas exigências, tudo indica que a negociação ficará em "banho-maria".

 

Para o prefeito, contudo, o cenário continua positivo.

 

“Esperamos que, depois o fim do contrato atual, possamos renovar [com a Fórmula 1] por mais dez anos e manter por uma nova década o GP do Brasil. E quem sabe ver nas nossas pistas novos Ayrtons Sennas, novos Piquets, novos Emersons, novos Massas”, disse Doria aos jornalistas, no domingo.

 

Segurança

 

Foi um dos temas de maior recuperação nesta edição do GP do Brasil por conta do assalto sofrido pela equipe de mecânicos e engenheiros da Mercedes, na sexta-feira, e a tentativa de assalto a membros da Fia e também da Sauber. Todos os casos ocorreram quando as equipes se dirigiam para algum hotel.

 

A reunião de Doria com os promotores do GP do Brasil e os organizadores da F-1 ocorreu por conta deste caso. Ele tentou amenizar a situação e explicar as falhas na segurança. Mas o tema é um problema recorrente no país. Os pilotos são os primeiros a admitir isso.

 

"É um problema triste, mas é um problema que já acontecia na época em que eu era piloto. A diferença é que naquele tempo não tinha Twitter e ninguém ficava sabendo. Mas a gente sempre ouvia comentários de que algo aconteceu, alguém foi vítima", disse Rubens Barrichello, hoje piloto da Stock Car, para a reportagem.

 

De acordo com o porta voz da Polícia Militar na região, um efetivo de 700 oficiais trabalhou na área de quinta-feira até domingo. Número pouco maior do que se viu nos últimos da prova em São Paulo. Consultada pela reportagem, a base local informou que não havia ocorrências durante o domingo.

 

Na visão do atual prefeito a privatização minimizará bastante essas ocorrências. "Haverá ajuda da segurança pública, mas também a empresa responsável pelo autódromo terá um número de agentes particulares maior dentro e fora do autódromo", disse Doria para os jornalistas.

 

Alguns membros da Fórmula 1 não têm tanta certeza. Afinal os roubos e as tentativas ocorreram do lado de fora, durante a noite, com policiamento presente em quase todas as quadras. Ou seja, a questão continuará sendo um problema de ordem pública.

 

 

Deficit

 

Ignorando a realizada do GP do Brasil, o autódromo de Interlagos representa um deficit anual de cerca de R$ 7 milhões para a prefeitura atualmente. Essa é a despesa para manutenção do local. O valor pesa bastante nos cofres públicos. Mas, como dizemos, essa cifra sozinha não representa nada quando se fala da F-1.

 

A Fórmula 1 é um dos eventos mais fortes que a cidade recebe, mas, como a prova está sem patrocinador desde 2015, a organização do GP do Brasil tem tido prejuízo. A expectativa para a temporada atual é de fechar com um deficit de quase R$ 100 milhões após o encerramento da corrida. Número que não é tão diferente do resultado do ano passado, segundo reportagem da "Folha de S.Paulo".

 

Isso ocorre porque o custo para abrigar a prova é muito alto. Além do gasto fixo para realizar a prova (na ordem de pouco mais de R$ 15 milhões), é necessário bancar uma taxa para a FOM (Formula One Management), empresa que cuida do Mundial da categoria. O valor é extremamente alto.

 

Antes Interlagos contava com os patrocínios da Petrobras e da Shell, além do apoio de Bernie Ecclestone, então chefão da F-1, que cobria os "buracos" financeiros restantes. Mas não é a mesma realidade com Liberty Media, dona dos direitos da categoria desde a temporada atual.

 

Após a prova do ano passado houve muitos questionamentos para Tamas Rohonyi, promotor do GP do Brasil, referente a possibilidade de Interlagos não receber a prova em 2017 caso não conseguisse patrocinadores. Os questionamentos se repetiu neste ano. As respostas também.

 

Neste caso a privatização é vista pela prefeitura como a salvação. Rohonyi é um pouco mais "pés no chão". Tanto que prefere esperar o anúncio da empresa que assumirá o autódromo (algo que só ocorrerá no próximo semestre) para se posicionar sobre o futuro.

 

Público

 

Desde 2010, quando 155.213 pessoas foram ao autódromo de Interlagos, a presença de público no GP do Brasil vem oscilando e para baixo (veja a tabela abaixo).

 

O número melhorou em 2017. Foram 141.218 presentes na soma dos três dias de evento - desde 2014 a organização não informa mais o público separado por dia. Mas a estimativa é que pelo menos 70 mil foram ao autódromo só domingo, dia da corrida.

 

Até o início da prova quase todos os ingressos estavam esgotados. Havia entradas apenas para o setor F (R$ 1.400 valor integral; R$ 700 o valor de meia-entrada). Um número considerável de cambistas agia no entorno de Interlagos com preços que variavam de R$ 600 a R$ 800.

 

O número atual representa uma boa melhora nos últimos cinco anos, o que empolgou os organizadores.

 

Para eles não importa a fase dos pilotos brasileiros ou a quantidade - nos últimos apenas Felipe Massa representou o Brasil, em 2018 não haverá ninguém -, o que dita a regra é a economia nacional. Este é o termômetro para o autódromo ficar cheio ou esvaziado.

 

"Não foi isso que a gente viu [busca de ingressos caírem por conta do desempenho de Massa]. Totalmente por fatores fora do controle do Felipe, ele não foi bem esse ano. Nada muda. Influência grande tem a situação econômica do país e a confiança do consumidor de gastar dinheiro. Fora isso, zero. Vou te contar uma história. O pior ano para venda de ingressos foi quando o Ayrton Senna ganhou aqui, em 1993. Não foi trágico, mas também não foi bem. Eu não entendo, ganhou a corrida. Vai saber...não tem nada a ver com brasileiro", disse Tamas Rohonyi para o ESPN.com.br.

 

É um dos poucos temas que tanto a prefeitura quanto a organização do GP do Brasil não veem diferenças com a privatização do local.

 

Público de sexta até domingo

 

2010 - 155.213 pessoas (no domingo, 72.631)

2011 - 144.636 pessoas (no domingo, 71.803)

2012 - 127.398 pessoas (no domingo, 69.984)

2013 - 130.475 pessoas (no domingo, 66.823)

2014 - 133.109 pessoas

2015 - 136.410 pessoas

2016 - 128.100 pessoas

2017 - 141.218 pessoas 








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